domingo, 18 de julho de 2010

Quis escrever músicas que fizessem as pessoas sentirem-se bem.




A música não pode ter nenhuma definição objetiva, pois ela conserva um caráter de abstração, o que a torna algo sem uma definição fechada ou precisa. Ela é uma arte sem corpo físico, como acontece com a pintura, a escultura ou a literatura, daí sua abstração. Pode-se dizer que ela não tem um significado, mas o produz, em determinados contextos; ou seja, só ó possível entendê-la através do vínculo estabelecido entre a música e os contextos (sociais, culturais, biológicos, físicos) a ela unidos.
Da Idade Média à Revolução Francesa, a música sempre foi uma parte importantíssima da cultura, da vida do homem. Compreendê-la fazia parte da cultura geral. Hoje, muitas vezes, ela se tornou um simples ornamento que permite preencher noites vazias com idas a concertos ou shows, organizar festividades públicas etc. Há um paradoxo, então: as pessoas ouvem, atualmente, muito mais música do que antes, mas esta, na prática, representa bem pouco, e possui muitas vezes, não mais que uma mera função decorativa.
Os valores que os homens dos séculos precendentes respeitavam não parecem, hoje, importantes. Essa modificação radical da significação da música se processou nesses últimos dois séculos com uma rapidez crescente. E ela se fez acompanhar de uma mudança de atitude frente à música contemporânea, aliás, frente à arte em geral, porque, como a música era parte essencial da vida, ela tinha necessariamente que nascer do presente. Ela era a língua indizível do homem, e só os contemporâneos poderiam entendê-la. Devia ser sempre criada com o novo, da mesma forma que os homens deviam construir para si novas moradas que correspondessem a um novo modo de existência, a uma nova modalidade de vida espiritual. Da mesma forma, já não se era capaz de compreender, nem de utilizar a música antiga, aquela das gerações passadas.
Hoje a música sofreu milhares de transformações que a distanciam do seu ouvinte contemporâneo. Por isso surgiu a canção, que é uma tentativa de "humanizar" o som, tornando-a mais compreensível. A música tem que ser, antes de tudo, bela. Só que a música não pode satisfazer tal exigência, porque, como toda arte, ela é o reflexo da vida das pessoas e, por isso, perturba. Por isso buscam na música antiga a beleza e a harmonia tão almejadas.
Mas a musica simplesmente bela jamais existiu; a beleza é componente de toda e qualquer música, portanto não se pode fazer dela um critério determinante, pois isso significa negligenciar e ignorar todos os outros componentes. Hoje, o homem deixou de querer compreender a música como um todo, e, por isso, a reduziu ao belo, nivelando-a. Mas ao torná-la apenas um componente agradável da vida cotidiana, ficou impossível realizar um exercício de compreensão da música antiga em sua totalidade.
Quanto mais as pessoas se esforçarem para aprender a música de um Monteverdi, de um Bach, ou de um Mozart, mais perceberão o quanto ela ultrapassa a beleza e o quanto ela perturba e inquieta, pela diversidade de sua linguagem; e só assim reencontrarão a música contemporânea, aquela que constitui a cultura de hoje e a prolonga.
Não foi por coincidência que a redução da música ao belo, àquilo que é por todos compreendidos, se tenha dado na época da Revolução Francesa. É de muita importância saber conviver e compreender a própria cultura. A música deve ser ensinada como uma língua e não como uma técnica de prática musical, sem vida.
Todos nós precisamos da música, sem ela não podemos viver.

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